Permanência

segunda-feira, 1 de outubro de 2018


Tudo parecia estranho ao entrar no apartamento pela primeira vez, ainda tão nu de significados. O sol da manhã entrou pelas venezianas semiabertas, ronronou na varanda, o chão imitando tijolinhos. A luz incidiu preguiçosa sobre os ganchos pendurados estrategicamente nas pareces, como se pedissem, praticamente implorassem para que uma rede fosse pendurada ali, onde de tarde eu pudesse me jogar e ler um livro. E samambaias. Sim, aquela varanda também pedia samambaias, muitas, frenéticas, constrangedoramente exuberantes. Nota para mim mesma: providenciar muitas plantas para transformar esse lugar em uma selva contemporânea, um oásis escondido nas entranhas de Copacabana. 

Pensei meio aleatoriamente em quão esquisita me parecia a situação de passar por outra mudança de casa, porque a cada uma delas, parecia que um pedaço de mim se perdia durante a viagem, aos solavancos do caminhão, em meio aos móveis desmontados, os enfeites e brinquedos e badulaques embrulhados em quilos e mais quilos de plástico bolha, e os livros amontoados em caixas de papelão roubadas do Hortifruti. Nunca chegavam todos ao destino. Que me restasse a esperança de que os volumes que eventualmente se extraviassem pelo caminho, talvez caídos do veículo após uma freada mais brusca, encontrassem um transeunte amigo que lhes soubesse fazer companhia. 

Pensar nos livros me fez abrir um sorriso de súbito. A sala era mais comprida do que larga, e se isso parecia ser um problema na hora de decorar, por outro lado, permitia a realização de um sonho antigo: o sonho da parede-inteira-tomada-por-estantes própria. No meio de todo o caos que a vida tinha se tornado no último mês, era um alento saber que meus livros iam finalmente ter um lugar decente para dormir, sem ter que ficar amontoados e empilhados, juntando poeira, por cada microcanto do flat minúsculo que servira de caverna para mim nos últimos cinco anos.

Por alguma razão, todo esse devaneio me lembrou do poema que eu havia lido não fazia nem duas semanas, de uma poeta que não conhecia mas que, nos primeiros versos, já parecia ter se tornado meu alter-ego poético, ou alguma coisa parecida com isso, caso eu fosse minimamente capaz de escrever poesia que não se parecesse com versinhos de pré-adolescente que tomou o primeiro pé na bunda. 


“que lugar é este olho ao redor e estranho a cadeira
de lona estranho as almofadas sobre o sofá tudo é
velho tudo é desconhecido e ao mesmo tempo
velho não sei quem viveu aqui
não sei que lugar é este tudo muda
desde ontem tudo muda eu
permaneço.“


Tinha anotado o poema no bloco de notas para não esquecer de procurar informações sobre a autora depois, mas acabei decorando-o na íntegra. De alguma forma, parecia para mim que os versos livres e desordenados de Annita Costa Malufe serviam como metáfora não só para a situação de mudanças, resiliência e caos pela qual eu estava passando mas, por que não dizer, para a minha vida. Tudo ao redor me era estranho, caótico; meus sentidos eram construídos por meio da desordem. Eu tentava me encontrar em minha própria imprevisibilidade. No fim das contas, acho que eu era contemporânea demais para conseguir ser clássica.

Andei até a varanda e abri a janela, menos para respirar o ar puro que vinha do mar, e mais para deixar aqueles pensamentos seguirem viagem. Talvez, apenas talvez, o poema de Annita não falasse somente sobre mudanças e estranhamentos, mas também sobre solidão. Era por isso que doía. Era por isso que pulsava. Era por isso que havia se instalado na memória de forma tão avassaladora. No prédio em frente, a janela cerrada ostentava um cartaz de “Fora Temer”. Ri sozinha disso. Quem sabe, depois de me instalar, eu não batesse lá e convidasse essa pessoa para tomar um café comigo. 

Após mais uma volta pelo palácio de quarto-sala-banheiro-cozinha, lâmpadas testadas, torneiras abertas, chuveiro a gás recebido com alegria, guardei as chaves na bolsa e bati a porta com força – não havia maçaneta do lado de fora e, portanto, trancar era desnecessário. 

Segui caminhando pelos ladrilhos coloridos, intimamente satisfeita com a visita. Não sabia dizer o porquê, mas tinha a impressão de que aquele apartamentinho seria o lugar perfeito para mim.



Fabiola Paschoal
Bibliófila, feminista, redatora, geek. Entusiasta das letras e das artes, adora quebrar estereótipos e dar opinião sobre qualquer assunto.

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